segunda-feira, 17 de novembro de 2014

'Esquecidos', objetos levados para o conserto ficam entulhados em lojas

Loja de consertos de eletrônicos tem 200 equipamentos abandonados.
'Um estorvo', diz dona de sapataria sobre peças que clientes não buscam.

Cerca de 200 equipamentos foram abandonados por clientes na loja de consertos de eletrônicos de Evilásio Paulino de Souza (Foto: Thais Kaniak / G1 PR)Cerca de 200 equipamentos foram abandonados por clientes na loja de consertos de eletrônicos de Evilásio Paulino de Souza
Televisões, microondas e até uma esteira ergométrica precisam ficar do lado de fora da loja. Falta espaço para que  Evilásio Paulino de Souza, em Curitiba, possa trabalhar no conserto de eletrônicos. O abandono é a razão dos objetos entulhados. Clientes deixam os aparelhos para conserto, porém, muitos não voltam para buscar. Hoje, são mais de 200 equipamentos abandonados, entre TVs, DVDs, rádios e aparelhos de som para carro. “Se o cliente avisasse, pedisse para jogar fora!" Mas não é o que acontece. Promessas e desculpas dos clientes não faltam. "Meu marido está trabalhando e não tenho como buscar.  'Estou esperando meu filho...’ Elas não falam que não vêm buscar”, lamenta. Souza diz que fica até as 20h na loja para que os clientes tenham tempo de passar depois do trabalho, mas a tática não tem surtido efeito. Nem mesmo as ligações que faz para os clientes, lembrando de que eles precisam pegar os aparelhos. “Ligo umas cinco vezes e nada”.
O descaso dos clientes com os equipamentos causa prejuízo para Souza. “Gasto tempo, luz e material”. Mesmo assim, ele não vende os objetos largados na loja. Prefere doá-los para reciclagem. “Prejuízo para vender seria ainda maior por causa da garantia. Se o produto estraga, eu preciso refazer a manutenção de graça. Então, prefiro doar a me incomodar posteriormente”. Para doá-los, precisa esperar o prazo determinado por lei, que é de três anos. Só depois desse período é que ele pode encaminhar para objetos para qualquer fim.
Dezenas de DVDs já arrumados estão parados em uma das prateleiras da eletrônica (Foto: Thais Kaniak / G1 PR)Dezenas de DVDs já arrumados estão parados em uma
das prateleiras da eletrônica 


















“O Brasil é o maior depósito de lixo eletrônico do mundo. Isso está se tornando um problema”, garante Evilásio Paulino de Souza. Ele explica que, nem sempre, o conserto vale a pena para o cliente. Ele cobra R$ 70,00 de mão de obra para arrumar uma televisão de tubo mais o valor da peça nova, que acaba variando entre R$ 40,00 e R$ 50,00. “O cliente não se interessa. Compra uma TV nova em 18, 12 vezes. Brasileiro tem essa mania”, avalia.
Souza relata que a mudança do aparelho televisivo fez diferença no segmento de mercado em que atua. “O problema é maior ainda. Não existem peças para consertar as TVs novas e, quando tem, o conserto fica caro”. Ele recebeu uma televisão de plasma de 60 polegadas com um defeito na tela, que é uma peça que não tem para vender na capital paranaense. “Teria que vir pela transportadora, poderia chegar aqui trincada. Além do transtorno, o preço do conserto ficaria inviável”, exemplifica. Aos 50 anos de idade e 35 consertando eletrônicos, ele não pensa em mudar de profissão. “Se um dia parar, vai ser nessa”.
Objetos precisam ficar do lado de fora do estabelecimento devido à falta de espaço (Foto: Thais Kaniak / G1 PR)Objetos precisam ficar do lado de fora do estabelecimento devido à falta de espaço